A IGREJA DENTRO DO ARMÁRIO
Recebemos um email repassado por um evangélico do site Holofote.net criticando a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) que, segundo ele, tenta transformar o Brasil, “país majoritariamente cristão”, em uma nação “absolutamente imoral”, “ sem dó nem piedade” O texto assinado por Sandro Guidalli que tem como título “ OAB quer transformar a sociedade brasileira na maior nação gay do planeta”, destaca dois pontos fundamentais: O casamento entre pessoas do mesmo sexo e a criminalização da homofobia. Eu gostaria de expor a minha opinião aqui de uma forma que permita observar os fatos por diversos ângulos e não apenas pelo angulo da igreja evangélica brasileira.
Começo analisando a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Durante muito tempo os protestantes sofreram, e não foi pouco, a interferência da Igreja Católica nas questões do Estado. É bom lembrar que somente “ontem”(1861) com o advento de uma de uma lei, houve a permissão para o casamento de pessoas protestantes no Brasil. Todos os não-catolicos até então viviam maritalmente(sem o reconhecimento do casamento pelo Estado). Isso sem falar nos óbitos, ou seja, todos que morreram, foram enterrados como indigentes. A lei deveu-se muito mais pela necessidade de registro dos emigrantes europeus no Brasil, do que propriamente pela luta da igreja protestante brasileira. É inegável a contribuição dos protestantes para criação do Estado brasileiro laicos. O Estado Laico é aquele que não possui uma religião oficial, mantendo-se neutro e imparcial no que se refere aos temas religiosos. Neste prisma considero até incoerente o preâmbulo da Constituição de 1988 que diz ter sido está “promulgada sobre a proteção de Deus”, pois uma constituição tem como pressuposto a igualdade de todos os seus cidadãos, inclusive os que não creem em Deus.
Diante do exposto, me parece uma posição no mínimo dúbia da igreja protestante brasileira no que diz respeito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Os que antes eram minoria e exigiam serem respeitados como tal, agora, querem que o Estado se coloque a seu favor no trato dos seus interesses religiosos. O pensamento cristão é que ninguém nasce homossexual, caso contrario Deus seria extremamente perverso com estes. A missão da igreja é pregar que Deus criou Adão e Eva e não Adão e Ivo. A lei que funciona é a do “Espírito Santo que convence do pecado da justiça e do juízo”.
O segundo fato, a criminalização da homofobia, ou seja, uma lei que estabelecerá que qualquer ato ou palavras que considere a homossexualidade uma coisa incomum, ou fora da normalidade pode ser considerado como homofobia. Isso tornará homossexuais, bissexuais e transexuais uma classe privilegiada de pessoas a impor seus costumes perante toda a nação. Na busca da coerência exposta no primeiro assunto, utilizo neste segundo. O Estado democrático de direito, tem a obrigação de assegurar o direito de liberdade de expressão e crença. Quero ter o direito de ensinar a igreja que pastoreio o que Escrituras nos ensinam: “Que os homossexuais não entrarão no Reino de Deus”, sem que a todo o momento tenha o templo invadido por comissões de Direitos Humanos, gays e polícia, me cerceando o direito de pregar no que creio. Em minha opinião nenhum grupo de cidadãos brasileiros é tão afrontado quantos os evangélicos. Somos estigmatizados nas novelas, nos comerciais, em redes sociais e etc. Enfim, tornaram os evangélicos sinônimos de hipócritas.
A terceira parte deste artigo reservo para a analise do comportamento da igreja protestante brasileira As igrejas estão cheias de fieis que se quer abem a Bíblia durante a semana, ou mesmo realiza culto domestico. A família cristã hoje, passa mais tempo em frente à televisão, vendo os reality shows com promiscuidade, prostituição do que cuidando da sua saúde espiritual. Os fatos demonstram que o mundo cristão quer transferir a responsabilidade da educação sexual e religiosa que é da família, para o Estado através de proibições em lei.
Penso porém que o xis do problema é mais em cima. Estamos vivendo uma teologia rasa, oferecida por lideres que já se intitulam, Bispos, apóstolos, patriarcas, querubins serafins e “semideuses”. O que caracteriza hoje um grande líder e a capacidade de dizer o que o povo quer ouvir e não o que Deus tem a dizer. Na busca deste “status” buscam alianças das mais escusas possíveis. Certa vez perguntamos a um irmão que nos ligou para apresentar um candidato na igreja, se este era comprometido com a causa cristã, recebi como resposta: “ele é um bom samaritano.” De samaritano em samaritano vamos elegendo contraventores, corruptos e pessoas totalmente descomprometidas com o pensamento cristão, que sem nenhum escrúpulos se comprometem com todo mundo. Pastores aprecem na televisão orando pela prosperidade deles, e agradecendo a Deus pela “propina” recebida. Pedem que os fieis vote “nesses samaritanos” em troca de blocos, cimento para construção de templos, que deveriam ser de obrigação dos fieis, mas que a fé rasa não consegue traduzir em dízimos e ofertas dos seus “infiéis”.
Ao longo da historia do Brasil, é ínfima a interferência evangélica em questões políticas sociais, entre estes raríssimos momentos destaco o posicionamento contrario a construção do Cristo Redentor no Rio de Janeiro, que foi construído com dinheiro público, e que até hoje a diocese do Rio de Janeiro usufrui do valor dos ingressos pagos pelos visitantes, e contra o ensino religioso católico nas escolas. Movimentos muito mais contrários ao catolicismo do que sociais.
Sem voz profética, morando nos palácios, contaminando-se com os manjares do rei, só resta artigos na internet sobre homossexualismo, que em nada irá mudar a realidade do país. Artigos em sites evangélicos para mim e voz sem eco. Enquanto isso, a maior parte dos imóveis evangélicos é mantida fechada. Nem sabemos quais são as necessidades dos moradores do bairro onde se situa a igreja. Não se cria escolas como no passado, não se oferece cursos alternativos para ajudar na melhoria da renda dos menos favorecidos. Não há interação com a comunidade em que a igreja estar localizada. Peço a essa igreja sem voz que não me convide para passeatas,jantares e vigílias.
Penso que de dentro do armário jamais seremos ouvidos e respeitados pelos poderosos e jamais seremos procurados pelos que precisam de nós.
Ivan Jorge dos Santos Luna é Bacharel em Historia pela UFBA, mestre em teologia, pastor da Igreja Batista Central de Paripe e Presidente do Centro comunitário de Paripe. Visite meu blog: privanluna.blogspot.com/
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