OS “SÃOS” PRECISAM DE CUIDADO?
Pr. Ivan Luna*
“Ali ficava o poço de Jacó. Era mais ou menos meio dia quando Jesus cansado da viagem sentou-se perto do poço” (Jo. 4:6 - NTLH).
O título deste artigo tem o objetivo de gerar uma reflexão. Quem seriam os “sãos”? Referimo-nos a nós mesmos, pastores e líderes de igreja que desprendemos grande parte do nosso tempo e ministério no cuidado dos nossos irmãos. Pensamos e agimos como se não necessitássemos de cuidados como os outros “mortais”. As perguntas são: Não carecemos de cuidados? Somos realmente invulneráveis? O cotidiano responde não. Vez por outra, somos surpreendidos com internações por stress, esgotamento físico, etc. No campo espiritual nos esquecemos que “precisamente os homens e mulheres mais dedicados para a liderança espiritual que são também os mais vulneráveis à carnalidade intensa” [1]. Quando nos indagam sobre folgas, férias e outros fatores ligados ao cuidado, respondemos quase sempre de forma musical: “vou não, quero não, posso não, o ministério não deixa não”.
Roseli Oliveira aborda um ponto importante entre os líderes religiosos: “os pastores são levados a uma cilada perigosa: procuram não se mostrar muito humanos para não correrem o risco de decepcionar os que deles esperam a perfeição”². Em outro momento, a mesma afirma: “trabalhar nossas próprias questões, como cuidadores, é fundamental. O cuidar-se é, num sentido amplo, uma vida com sentido. O cuidado de si mesmo envolve a parte orgânica, física, bem como a emocional e a espiritual. Inclui o descanso, o lazer, a qualidade do sono, a alimentação equilibrada, a atividade física” [2]. Completamos com a necessidade de amigos, para espantar o estigma da solidão pastoral.
O texto bíblico de João 4:6 tem tudo a ver com o tema e exige algumas reflexões: teria Jesus pedido água só como pretexto para o início de um diálogo com a mulher samaritana? Tal interpretação é uma negação da humanidade de Cristo e do relato de João que diz “Cansado da viagem, sentou-se”. Jesus, o nosso modelo de liderança, cansou-se, teve sede, fome, chorou e olhou os lírios do campo. Ele tinha tempo para visitar os amigos, Marta, Maria e Lázaro, tinha tempo para as crianças e espera isso dos seus líderes do século XXI.
Jesus primava pela saúde dos seus discípulos. Após voltar de uma missão evangelizadora, eles ouviram do mestre: “vinde repousar a parte, num lugar deserto...” (Mc. 6:31). O nosso mestre percebeu que os discípulos careciam de cuidado. O desprezo pelo cuidado pessoal, quer físico, quer espiritual, é a negação da nossa humanidade. Hoje, Jesus continua precisando de obreiros bem resolvidos e saudáveis.