Jose de Arimateia, Nicodemos e outros rotulados
“E eis que um homem por nome José, senador, homem de bem e justo,
que não tinha consentido no conselho e nos atos dos outros, de Arimateia,
cidade dos judeus, e que também esperava o reino de Deus...” (Lc 23.50,51)
É incrível como a rotulação acompanha as pessoas entre esses,alguns personagens bíblicos. A pergunta que faço é: Por que rotulamos pessoas, por uma atitude de suas vidas e apagamos as suas demais virtudes e ações?
Já li umas centenas de vezes textos bíblicos referentes a José de Arimateia. Examinava a Bíblia de Estudos King James recém-lançada em português, e só então ao lê uma nota de roda pé, atentei para as suas qualidades apresentadas na narrativa do evangelho de Lucas. Como membro do conselho, deixou muito claro o seu voto e sua posição contrária aos demais membros do Sinedrio de condenar Jesus. Além de ser homem de bem e justo. O comentário bíblico em referencia afirma que: “... ele arriscou sua posição e sua própria vida ao tomar a iniciativa de solicitar uma audiência urgente com Pilatos para os preparativos do funeral... Esses rituais eram proibidos pelo Sinédrio, no caso de criminosos executados.” [1]. Mas o que me vem sempre à memória é o relato de João: “José de Arimateia que era discípulo de Jesus, mas em oculto, por temer os judeus...”[2].
Outro rotulado é Nicodemos. O que fez um homem fariseu, membro do Sinedrio ir a noite conversar com Jesus, se não tratar da inquietude espiritual que provavelmente assolava a sua alma? Analisemos como deve ter sido difícil para ele se desvencilhar dos seus pares, atolados numa religião tradicional e irrelevante. Penso que Nicodemos estava inconformado com sua vida espiritual mal alimentada pela superficialidade da sua religião, e buscava um novo nascimento. Entretanto o rotulo de Nicodemos é do fariseu (fariseu é pejorativamente sinônimo de hipócrita)que procurou Jesus à noite, simplesmente para não romper com seu “status quo”.
José de Arimateia e Nicodemos demonstram dentro das suas limitações, uma coragem rara entre os cristãos do nosso século. Saem do anonimato e preparam o corpo do mestre para o funeral, enfrentando judeus e romanos.[3]
Poderia citar muitos outros, mas para não me alongar em exemplos, destaco finalmente Tomé. Há um texto sobre ele que chama muito atenção. Quando os Judeus procuravam Jesus para matá-lo, por ocasião do milagre de Lázaro, Tomé convoca os demais discípulos da seguinte forma: “... Vamos nós também, para morrermos com ele.” [4] Não vi ainda comentário sobre “Tomé o discípulo disposto a morrer pelo seu mestre”. O fato de querer vê as marcas na mão do mestre para crer, entretanto, o rotulou definitivamente como o discípulo da incredulidade.
Miserável cristão que somos. Apenas capaz de rotular homens pelas suas fragilidades, erros e pecados, esquecendo-me das suas virtudes. Obrigado Senhor pelas suas misericórdias[5], e por não me enxergar de igual modo.