O Profeta do Paraguai e o Poder
E vos darei pastores segundo o meu coração,
que vos apascentem com ciência e com inteligência.(jr 3.15)
A revista Cristianismohoje[1] trás um artigo bastante atual. O artigo relata que a Comissão Nacional da Verdade vai apurar a atuação de lideres da igreja católica e protestante na época da ditadura Militar no Brasil. Enfatiza a reportagem da revista, sobre rumores que pastores “delataram” na época um crente que dirigia o Departamento Nacional de Juventude sua denominação aos militares golpistas de 1964.
Ao longo da historia essa tem sido uma relação mal resolvida, entre os profetas de Deus e o poder. Com o advento da monarquia em Israel, os reis levavam para dentro dos palácios, na condição de funcionários públicos, os profetas para consultarem a Deus sobre que decisão tomar, principalmente nas questões de guerras. Esse fato se torna comum no Antigo Testamento, que chega a colocar em lados opostos até grupos de profetas[2]. O que notamos é que o poder passa a exercer uma influencia sobre os profetas e não os profetas sobre o poder. É interessante como isso e percebido pelo rei Josafá quando diz “Não há aqui outro profeta a quem possamos consultar?” Josafá percebeu o interesse dos profetas em agradá-lo e a Acabe. O comprometimento dos profetas com o poder levou-os a profetizarem de forma favorável aos reis que os sustentavam[3]. Em ambos os casos citado, é comprovado em capítulos posteriores, que a verdade profética encontrava-se com os profetas avessos a vontade do rei, e não aos seus “profetas favorecidos”.
Trazendo para os nossos dias, os pastores, profetas de hoje, tem se “praticado”, aquilo que popularmente se chama de “dois pesos e duas medidas”. O tratamento diferenciado entre irmãos e irmãos, tem sido notado e comentando. A escolha de diáconos tem recaído sobre os de melhores condições financeiras, e não sobre os que possuem o dom de servir a Deus. Fora da igreja há os que calam e defendem políticos corruptos, porque de alguma forma estão presos a eles pelos compromissos partidários ou da gratidão por emprego de parentes ou blocos para construção de templo. É bom lembrar o caso de uma igreja de Goiás em que um pastor se negou a casar uma filha de um mangagão da congregação (leia-se mangagão, alguém de dízimo alto ou influencia nefasta na congregação, para diferenciar dos que exercem a liderança espiritual, através dos seus dons e testemunho de vida) e foi obrigado a abrir a porta do templo para realização da cerimônia por determinação judicial. Virou manchete do Jornal Nacional. Pra nós virou herói. Não vai receber primícias, nem convite para almoçar em restaurante caro. Esse pastor resolveu pagar o preço e entrar no rol dos profetas “sem teto”, Elias, Eliseu, Jeremias e Natã.
O povo já olha com desconfiança um artigo escrito por um pastor, e com razão. É importante observar o histórico de quem o escreveu, a coerência com outros artigos escritos pelo mesmo autor, e seu comprometimento político partidário. Só então analisarmos se fala a “sua” verdade ou a verdade. Precisamos ter cuidado com nossa posição de profeta. O profeta é o representante legitimo do Senhor nessa terra, não deve ter compromissos maiores do que com o seu Deus, seja ele com maçonaria,partido político ou o que quer que seja, caso contrario e do “Paraguai” [4].
Ivan Jorge dos Santos Luna é Bacharel em Historia pela UFBA, mestre em teologia, pastor da Igreja Batista Central de Paripe e Presidente do Centro comunitário de Paripe. Visite meu blog: privanluna.blogspot.com/
[1] Cristianismo Hoje. Edição32, dez/jan, pagina 10
[2] Jr 28.1-11
[3]I Rs 22.7
[4] Expressão pejorativa utilizada no Brasil para denominar algo de procedência duvidosa.